...love is to destroy.

will you believe me once again?


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o aliciador;
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strangemadchen
Como todos os criminologistas que trabalhavam em conjunto com a polícia, o Dr. Gavila tinha os próprios métodos. E o primeiro deles era atribuir algumas características ao criminoso, de modo a transformar uma figura ainda nebulosa e indefinida em algo mais humano, pois diante de um mal tão feroz e gratuito, temos tendência a esquecer que o autor, como a vítima, é uma pessoa, muitas vezes com uma existência normal, um trabalho e, talvez, até uma família. Confirmando sua tese, o Dr. Gavila costumava dizer a seus alunos na universidade que quase todas as vezes em que um serial killer era preso, seus vizinhos e familiares caíam das nuvens.

— Costumamos chamá-los de monstros porque nós os vemos como pessoas distantes de nós, porque queremos que sejam "diferentes" — dizia Goran em seus seminários. — No entanto, são semelhantes em tudo e por tudo. Mas preferimos reprimir a ideia de que um semelhante seja capaz de tudo isso, em parte para absolver nossa própria natureza. Os antropólogos definem isso como "despersonalização do réu" e constitui o maior obstáculo para a identificação de um serial killer: um homem tem pontos fracos e pode ser capturado; um monstro, não.

Por esse motivo, Goran sempre pendurava em sua sala de aula a foto em preto e branco de um menino. Um pequeno, rechonchudo e indefeso filhote de homem. Seus alunos a viam todos os dias e acabavam se afeiçoando à imagem. Quando — mais ou menos por volta da metade do semestre — alguém tomava coragem e perguntava quem era, ele o desafiava a adivinhar. As respostas eram as mais variadas e fantasiosas. E ele se divertia com suas expressões quando revelava que aquele menino era Adolf Hitler.

No pós-guerra, o líder nazista tinha se transformado num monstro para o imaginário coletivo e durante anos as nações que saíram vencedoras no conflito se opuseram a qualquer visão divergente. Por isso ninguém conhecia as fotos da infância do Führer. Um monstro não poderia ter sido um menino, não poderia ter sentimentos diversos do ódio ou uma existência parecida com a de seus contemporâneos que mais tarde seriam suas vítimas.

— Para muita gente, humanizar Hitler de certa maneira significa "explicá-lo" — dizia Goran. — E a sociedade acha que o mal extremo não pode ser explicado nem entendido. Tentar explicar significa tentar encontrar algo que o justifique.


O Aliciador — Ele Está Sempre um Passo à Frente;
Donato Carrisi — 2009.

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